Um impasse entre ruralistas e ambientalistas resultou no adiamento, por duas vezes nesta semana, da reunião que elegeria o presidente e os vice-presidentes da comissão especial para mudança do Código Florestal brasileiro. A reunião prevista para ontem (30) foi adiada por falta de consenso sobre os nomes que vão compor a coordenação dos trabalhos. No dia anterior (29), a sessão terminou em bate-boca e xingamentos.

O desgaste teve início quando o presidente interino da comissão, deputado Valdir Colatto (PMDB-SC), anunciou a composição da chapa única que deveria ser validada pelos parlamentares. A chapa, composta com a autorização do presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), teria na presidência o deputado Moacir Micheletto (PMDB-PR), relatoria de Homero Pereira (PR-MT), Giovani Queiroz (PDT-PA) como primeiro-vice, Sarney Filho (PV-MA) como segundo-vice e Luiz Carlos Heinze (PP-RS) como terceiro-vice.

Com exceção de Sarney Filho, todos os demais parlamentares da chapa indicada são da bancada ruralista. A composição revoltou os ambientalistas. O líder do PV, deputado Edson Duarte (BA), acusou os ruralistas de “tratorarem” a revisão do Código Florestal e de incluirem o nome de Sarney Filho sem autorização do partido.

“Não fiz acordo com ninguém, não indiquei ninguém, e o deputado Sarney também não concordou com isso”, disse Edson Duarte. “Todo mundo já sabe o que se quer aprovar aqui. E não vamos participar desse teatro”, acrescentou.

O clima esquentou ainda mais quando o líder do Psol, Ivan Valente (SP), e o deputado José Genoino (PT-SP) pediram a palavra, e o presidente interino Valdir Colatto ignorou os pedidos, dando por encerrada a sessão. Nesse momento, ambientalistas ameaçaram fazer “denúncia internacional” das manobras ruralistas contra a legislação ambiental brasileira.

Aos gritos, o deputado Genoino passou a acusar os ruralistas de golpistas e dizer que eles não estavam “tratando com boi”. “Aqui não é um fazendão. Isso aqui não é criar boi, não”, disse. O deputado Heinze reagiu, chamando Genoino de “sem vergonha”. “Vocês querem vender o Brasil para essas ONGs internacionais”, acusou. Genoino respondeu: “Aqui não passa trator. Os líderes não foram ouvidos”.

O bate-boca contagiou os demais integrantes da comissão presentes que passaram a trocar farpas entre si. Aos gritos, o deputado Marcos Montes (DEM-MG) disse que Ivan Valente tinha acabado de chegar e não teria direito de opinar. Valente, exaltado, gritou que o presidente Colatto havia cassado “a palavra de um líder” e que estava contrariando o regimento interno da Casa. Colatto respondeu dizendo que Valente “se exaltou para aparecer na TV”. “A minoria tem que respeitar a maioria”, disse Colatto.

Uma nova reunião da comissão deve ocorrer na próxima semana. Segundo a liderança do PV, os parlamentares do partido estão se mobilizando para propor uma nova composição para o comando do colegiado. Eles querem que mais nomes indicados pelos ambientalistas façam parte da composição da diretoria da comissão.

Renata Camargo