Empresa quer que governo cobre tarifa, enquanto que produtores esperam pagar menos pelo produto chinês

A importação de glifosato da China volta a causar polêmica no Brasil. O governo aceitou avaliar o pedido feito pela Monsanto de revisão da atual medida antidumping contra o produto. Representantes do setor rural acusam a empresa de querer impedir a livre concorrência.

Única produtora do herbicida glifosato no país, a Monsanto concorre diretamente com o produto chinês. Segundo números da própria multinacional, nos últimos dois anos, a participação dos asiáticos no mercado brasileiro caiu de 62% em 2009 para 45% no ano passado. Mesmo assim, o diretor da empresa acredita que a concorrência ainda é desleal.

– O volume que chega não é uma preocupação da Monsanto. O preço que chega é uma preocupação da Monsanto e da indústria doméstica de glifosato. A Monsanto compete com os chineses com custos locais, nossos custos são em reais. Então, fica difícil quando você tem um câmbio desfavorável, quando você tem um chinês praticando um preço abaixo do que ele pratica no próprio mercado interno, que praticamente não existe, o mercado interno chinês é muito pequeno – disse Rodrigo Lopes Almeida, diretor de assuntos corporativos Monsanto Brasil.

Atualmente, é estabelecido um preço mínimo. O glifosato chinês deve entrar no Brasil por, no mínimo, US$ 3,60 o quilo. Se o valor for menor, é cobrada a diferença. A Monsanto considera a medida ineficaz porque o preço médio hoje já está acima do mínimo, em torno de US$ 3,80. Por isso, a multinacional pediu ao governo uma revisão da medida. A empresa quer a volta de uma tarifa que seria aplicada sobre o preço de importação do glifosato. O diretor evitou dizer qual taxa seria a ideal, mas deu uma indicação.

– O Decom vai deliberar e a Camex vai aprovar ou não. É importante mencionar que, de 2003 a 2008, o glifosato teve uma proteção de 35,8% que protegeu a indústria doméstica – afirmou Rodrigo Lopes Almeida.

No outro lado da polêmica estão os produtores rurais, que esperam pagar menos pelo herbicida com a importação do produto chinês. Líderes da Frente Parlamentar da Agricultura criticaram a decisão do governo de aceitar o pedido da Monsanto de revisão da tarifa. Para o deputado federal Luiz Carlos Heinze (PP-RS), a empresa quer impedir a livre concorrência. Segundo ele, o produtor vai ser prejudicado caso a tarifa antidumping seja elevada.

– Existe preço mínimo para a Monsanto, não existe preço mínimo para o arroz, por exemplo. Ninguém garante os R$ 25,80. O governo não garante. Será que a Monsanto precisa mais que os arrozeiros do Rio Grande do Sul, do Paraná e de Santa Catarina? Tenho certeza que não. Esses sim estão fechando no vermelho, não conseguem fechar suas contas – falou Luiz Carlos Heinze.

O parlamentar defende o fim de qualquer tarifa de importação sobre o glifosato chinês.

– Nós usamos muito o glifosato, com o advento do plantio direto, por exemplo. Então, nós precisamos ter essa liberdade de podermos importar esse produto sem onerar ainda mais o nosso produtor. Essa é a preocupação que nós temos e vamos continuar lutando para que se mantenha esse patamar e até, se possível, nós consigamos eliminar a zero – observou Heinze.