A proibição da venda de cigarros com sabor, proposta pela Anvisa em 2010, provocou uma reação de setores contrários à medida.
A consulta pública feita pela agência terminou no fim de março, mas sindicatos de agricultores, associações de tabaco e prefeituras se organizaram para enviar uma enxurrada de sugestões.

A estratégia é retardar o desfecho do debate.

Ao todo, já são cerca de 180 mil correspondências que lotam as salas da agência  ---  diversas com o mesmo remetente e até 5.000 em branco.

O fenômeno surpreendeu os técnicos da Anvisa. Em 2006, quando a agência tratou de outra questão polêmica --a restrição à publicidade de alimentos com excesso de açúcares e gordura-- foram entregues 254 sugestões.

Do total recebido pela agência sobre os aditivos do cigarro, 165 mil comentários foram encaminhados pelo deputado federal Luiz Carlos Heinze (PP-RS).

O congressista contou que foi chamado no dia 28 de março pelos organizadores para participar da entrega dos comentários, feita no dia seguinte a papelada seguiu de caminhão para Brasília.

"Esse pessoal não tem computador. E eu cobrava deles: tem que ter um clamor para dizer que tem alguma coisa errada nisso. Não podem achar que são só dois ou três lobistas", afirma.

PRORROGAÇÃO

O diretor da Anvisa, Agenor Álvares, garante que o lobby pró-tabaco não vai inviabilizar o trabalho. "A grande jogada deles é que, pela quantidade, a gente não termine, mas isso deu um ânimo maior à equipe", diz. "Foi uma ação organizada, mas as pessoas que assinaram [as sugestões] merecem o nosso respeito e vamos analisar todo o material."

Ele admitiu que o grande volume de sugestões deve impedir que a Anvisa conclua o trabalho ainda neste semestre, como previa. O adiamento era o objetivo da ação organizada pela Afubra (Associação dos Fumicultores do Brasil), que sozinha preencheu 15 mil formulários, segundo o presidente da associação, Benício Werner.

A Philip Morris afirma que, se implementadas medidas contra os aditivos de cigarro, 99% do mercado brasileiro seria afetado e isso fomentaria o comércio ilegal.  A Souza Cruz diz que apoia o "debate aberto e democrático" como uma ferramenta para uma regulação do mercado ao mesmo tempo "eficaz" e "equilibrada no respeito aos direitos de todas as partes envolvidas".