Mesmo depois de treze anos de parceria – o Mercosul foi fundado com os quatro primeiros países membros no dia 26/03/1991 -, Brasil e Argentina ainda não conseguiram acertar o compasso nas negociações internacionais. Não é segredo para ninguém a rivalidade no futebol e as diferenças no gosto pela dança, mas o que ninguém esperava, ou pelo menos os bem intencionados, era a criação de entraves econômicos, por parte dos argentinos, nas vésperas da 26o reunião dos presidentes do Mercosul, em Puerto Iguazú.

Mas aconteceu. A Argentina restringiu recentemente a importação dos mais variados produtos brasileiros em seu território. Enumeremos: primeiro, o embargo à carne suína. A justificativa, se não fosse estratégica, poderia ser taxada de ingênua. O governo de Néstor Kirchner impediu a entrada do produto no país, pois foi noticiado pelos seus jornais que havia um foco de febre aftosa no Paraná. Detalhe: ‘los periódicos’ argentinos confundiram o Estado do Sul com o Pará, onde, de fato, estava o foco.   

Reparação do erro, caso resolvido? Ainda não. A Argentina sabe dançar conforme a música – talvez tenha aprendido com os chineses. Findo o impasse sobre a carne, surge outro: decreta-se restrições aos eletrodomésticos tupiniquins. Geladeiras, máquinas de lavar roupas e fogões precisarão de autorização prévia da Secretaria de Indústria do Ministério da Economia para serem importados do Brasil.

E olha que diplomacia não está fazendo parte do vocabulário do presidente argentino. Aliás, está. Da boca pra fora. Néstor, que transferiu a presidência pró-tempore do Mercosul tratando Lula como ‘mi querido amigo’, já anunciou que as medidas podem ser estendidas ao setor têxtil. E tem mais: televisores produzidos na Zona Franca de Manaus foram taxados em 21% para entrarem no país de Maradona. Veículos e máquinas agrícolas também sofrerão restrições.   

Práticas protecionistas sempre fizeram parte das estratégias política e econômica dos países. Entretanto, não podem ser aplicadas de imediato e ao livre arbítrio da nação; é preciso comprovar o dano ou ameaça à economia local. Caso contrário, corre-se o risco de exercer o poder discricionário.  

Se o Brasil não fizer algo, não conseguir avançar nas negociações, pode entrar no baile errado. E acho perigoso vermos, nesta festa, mulatas brasileiras dançando tango argentino...