“No início era o lucro, e o lucro estava com Deus, e o lucro era Deus”. Não se espante leitor, mas o que se configura em forte heresia para a maioria dos cristãos, constitui-se no princípio norteador das diretrizes dos bancos nacionais. Tudo bem, você é do tipo São Tomé? Só acredita vendo? Então não se espante com o que virá a seguir:

- O lucro somado das quatro maiores instituições bancárias no primeiro trimestre deste ano foi de R$ 2,38 bilhões, aproximadamente 24% a mais do que nos três primeiros meses de 2003;

- Enquanto a carteira total de crédito cresceu só 5,7% no trimestre, a receita com empréstimo avançou 13%, chegando a R$ 7,825 bilhões. A receita com serviços passou de R$ 3,022 bilhões para R$ 3,788 bi, com alta de 25,4%;

- O spread – diferença entre as taxas de juros básicas (de captação) e as taxas finais (custo ao tomador) – bateu recorde em abril e elevou os juros cobrados de 33,2% para 34,1%;

- No ranking de 130 nações, o Brasil é o campeão em spread, mas está em 53º lugar no volume de crédito, com 30,24% do PIB.

Esses números servem para explicitar um cenário e uma verdade que não se escondem mais: no País que vai mal, os bancos vão muito bem, obrigado. Afinal, ninguém ainda ouviu falar que instituições financeiras dividem seus lucros e contribuem, assim, com o desenvolvimento da nossa economia.

O que presenciamos com a regularidade, que preferíamos não notar, é a diminuição constante no número de empresários em busca de crédito e o acréscimo do lucro bancário, beneficiado sempre com a cobrança exorbitante de juros irreais. Esta já é a realidade atual: não há pequeno empresário brasileiro que consiga tomar crédito para capital de giro e pagar 40% a 50% ao ano de juro, em inflação de 12%, 15%, 20%.  

De nada adiantou a chegada de bancos estrangeiros. A esperança de que eles trouxessem para o Brasil o sistema competitivo da Europa não passou de um sonho de verão. O “jeitinho brasileiro” contaminou a tudo e a todos. Amparados pela permissividade e omissão governamental, até os bancos europeus preferiram o lucro fácil, atuando como oligopólios, contradizendo toda a cultura européia. Enquanto os banqueiros ficam comodamente instalados, preocupados apenas em contar somas cada vez mais vultosas de lucro, o governo – numa ladainha sem fim – não sai do discurso para a prática, em reduzir a taxa de remuneração dos bancos.

O Brasil se perpetua, assim, como o País da especulação bancária. E digo com a mais absoluta certeza; não paguem para ver o contrário, pois os senhores terão de arcar com altíssimo spread, juros absurdos e todo tipo de taxas e serviços...