As recentes notícias publicadas na  imprensa, escancara a vergonha nacional do extremo protecionismo estatal ao Movimento dos Sem-Terra, enquanto outras classes sociais, ordeiras e civilizadas, continuam abandonadas à própria sorte, sem a mínima chance de lutar por uma vida melhor e mais digna. As matérias revelam a existência de cursos superiores discriminatórios, que permitem que os sem-terra entrem na faculdade pela janela.  

Nem os sem-terra, nem ninguém, tem o direito a tirar vantagem especial de um benefício, como é o ensino gratuito, pago por todos os contribuintes brasileiros, oriundos de todas as categorias e classes sociais. Enquanto todos os trabalhadores brasileiros trabalham arduamente todos os dias, triplicando esforços para estudar à noite e conseguir entrar pela porta da frente de uma universidade pública, o Estado decide abrir as janelas destas instituições para permitir o acesso de uma categoria que já goza de privilégios especiais neste País, ficando acima da Lei e da ordem.

É inconcebível e inacreditável que o Estado esteja incentivando tamanha injustiça com a classe trabalhadora brasileira. Ou se abre as janelas das universidades para todos os brasileiros, indistintamente, ou que as mantenha fechadas, em nome da dignidade, da decência, da moral, da honestidade, da honra e da respeitabilidade. O Estado protecionista não tem o direito de usar dois pesos e duas medidas. Muito menos tem o direito de continuar desestimulando aqueles trabalhadores que lutam desesperadamente por uma cadeira na faculdade. Uma luta sofrida, repleta de abnegação e de entrega por um único objetivo: o ensino superior.

Enquanto milhões de jovens trabalhadores lutam pelo sonho de uma vida melhor, alguns poucos felizardos chegam ao mesmo objetivo sem escorrer uma única gota de suor, sem perder uma única noite de sono, sem o menor esforço.  

A Universidade Federal de Sergipe vai retomar um curso de agronomia para assentados e filhos de assentados. Estão criando um bacharelado exclusivamente para os sem-terra. Um curso especial, com turma única, composta por 60 sem-terra, que prestaram um vestibular diferenciado em janeiro deste ano. Ao todo, 85 sem-terra disputaram as 60 vagas, fazendo apenas uma prova de conhecimentos gerais. É o fim do sistema de mérito para ingressar na faculdade e um acinte às regras que o Ministério da Educação exige das demais universidades. O MEC sanciona a manobra, que joga o ensino superior brasileiro no caos e na ilegalidade.

Foram 85 sem-terra disputando 60 vagas. Concorrência bem inferior à do curso tradicional, que teve 409 alunos inscritos para disputar apenas 40 vagas no curso regular de Engenharia Agronômica. A Associação dos Engenheiros Agrônomos de Sergipe entrou com liminar para suspender a instalação do curso, que foi derrubada pelo desembargador Marcelo Navarro, da Quinta Região da Justiça Federal, no Recife. Enquanto 60 sem-terra privilegiados irão às aulas, 369 candidatos que não conseguiram passar no vestibular, serão obrigados a mais um período de cursos intensivos, estudando e trabalhando para manter aceso o sonho da universidade. Ou, quem sabe, eles ingressarão no MST, que passou a ser o caminho mais curto e fácil para entrar na faculdade, mesmo que pela janela.

Alegar que os sem-terra merecem tratamento diferenciado, que eles não têm dinheiro para fazer uma faculdade, é tentar justificar o injustificável. Afinal, a grande maioria dos estudantes brasileiros está na mesma situação. Quantos trabalhadores da construção civil não sonham em ver seus filhos na universidade pública? Quantos garis?! Quantos trabalhadores humildes não sonham em oferecer uma vida melhor e mais digna para seus filhos? Como se sentirão esses pais, ao verem o esforço de seus filhos, que mobilizam todas as forças físicas e intelectuais para ingressarem na universidade, sabendo que outros filhos conseguirão a vaga entrando pela janela da instituição?

Atitudes como esta geram desestímulo aos estudantes que querem entrar na universidade de cabeça erguida, pela porta da frente, transformando seu ingresso em uma conquista pessoal, fruto de muito esforço. A imprensa está certa quando diz que o privilégio concedido aos sem-terra transforma os estudantes brasileiros em cidadãos de segunda classe. O que está acontecendo com o ensino público superior brasileiro é degradante, desprezível e injusto para com todos os estudantes brasileiros. Fazer justiça, neste caso específico, somente acabando com qualquer tipo de privilégio ou de classe privilegiada. Ou, então, o que seria o ideal, estendendo o privilégio para todas as classes sociais deste País. O que não podemos permitir é o privilégio de apenas uma categoria, que nem precisa estudar para entrar na faculdade, enquanto tantas outras se torturam para derrotar a desumana concorrência nas universidades públicas deste País.