O mundo do agronegócio, meu prezado Juremir, vai muito além dos números levantados pelo IBGE. Existem outros institutos, fundações e empresas estatais que nos ajudam a entender melhor a imensa complexidade que é produzir alimentos no Brasil. Para entender o tema é preciso um pouco de história também. Comecemos por ela.

O endividamento rural começou no final dos anos 80, após a rodada do Uruguai e do Gatt, quando o mundo decidiu eliminar os subsídios. Alguns países seguiram a decisão, outros não. Estados Unidos, China, Japão, Índia e os da Europa continuaram subsidiando e não interromperam a prática. Todos os anos esses países aplicam US$ 400 bilhões em subsídios. Mais de 50% da renda rural dos produtores norte-americanos é bancada pelo governo.

No Brasil, dos anos 80 até hoje, os preços reais recebidos pelos produtores de grãos, fumo, fibras, carnes e lácteos, atualizados pelo IGP-M da FGV até agosto de 2009, caíram em torno de 60%. O mercado de defensivos, fertilizantes, diesel, grãos, máquinas (tratores e colheitadeiras) é altamente cartelizado. A carga tributária brasileira passou de 20% do PIB em 1980 para 36% em 2009. O produtor, quase sempre, não consegue repassar a diferença no preço do que produz. Bem diferente lá de fora, com a prática do subsídio.

Mais um aspecto da questão, que não é citado pelo IBGE: a alta concentração dos supermercados. somente quatro empresas abastecem 59% da população brasileira. Trata-se de um cartel que pressiona as indústrias de carnes, lácteos, grãos e frutas, que, por sua vez, descarregam essa pressão no preço pago ao produtor. Com essa prática, nem o consumidor é beneficiado.

Como se vê, os problemas da política agropecuária são lançados em um funil, que cai diretamente na cabeça do produtor. Só ele paga a conta. A questão é simples. Sem subsídio, o produtor está subsidiando o consumidor brasileiro. Talvez não conste no IBGE, mas, nos últimos 15 anos, o arroz teve apenas sete anos de preços positivos e o trigo apenas dois. Enquanto discutimos o óbvio, os suinocultores independentes estão perdendo de R$ 60,00 a R$ 70,00 por suíno produzido. Os criadores de gado de leite estão pagando para produzir, e o balde já está, literalmente, derramando na fazenda.

As assimetrias do Mercosul não constam no IBGE. Mas aí está um problemão, que merece bem um capítulo à parte, pois ele foi mais um funil posto acima da cabeça do produtor.

Ah, antes que me esqueça: produtor produz alimentos para sustentar a sua família, assim como quem produz notícias, tecido, papel, etc. São atividades profissionais. Simples assim.

Luis Carlos Heinze
deputado federal PP-RS